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Crítica – Uma Nova Gera-Ação – Um olhar para o Circo Teatro Palombar e seu espetáculo A Fabulosa Charanga dos Excêntricos – por Leandro Hoehne

 

As famílias tradicionais de circo costumam identificar seus artistas contando gerações. É comum em uma conversa você ouvir que fulano é da primeira geração de determinada família e o menino que nasceu e mal deu os primeiros passos já representa a quarta, quinta, sexta geração de artistas circenses.

Não é só por orgulho de carregar um grande nome perpetuado no tempo com a responsabilidade sagrada de preservar uma arte milenar, mas também por reconhecimento de classe – a grande família circense é também o seu próprio “sindicato”, é a identidade de um agrupamento que fala por si, se organiza ao seu modo, defende o próprio ofício, uma vez marginalizados desta sociedade normativa que, até mesmo na garantia de direitos, se esquece de incluir alguns de seus sujeitos. Com o aparecimento das escolas de circo, sobretudo na segunda metade do século XX, novas configurações de grupo foram se criando.

A família deixa de ser a única base reconhecível na representação da linguagem e artistas independentes, grupos de teatro, artistas de rua, etc, se apropriam da linguagem sem necessariamente haver atribuição de laços familiares. A ação artística também alça outros territórios e contextos, do “circo de evento” direcionado ao setor privado ao “circo social” direcionado às regiões urbanas com alto índice de vulnerabilidade social.
Obviamente o circo, como em todas as suas fases anteriores, seguiu seu curso como uma arte permanentemente contemporânea, que se adapta ao contexto social, econômico, político e cultural da época, porém, talvez pela primeira vez, há de fato uma crise de identidade (próprio da pós-modernidade) com a diluição desta que sempre foi a mais simbólica atribuição ao “ser de circo”, que acaba por colocar em cheque também o reconhecimento daquilo que se é ou não circo, daquele que
pode ser ou não chamado de circense. Esta visão de classe e/ou categoria também acaba afetada e diluída o que no contexto das políticas públicas passa a ser um problema, na verdade o calcanhar de Aquiles de todos estes artistas.

A arte hoje sobrevive em parte por negócio, uma vez que a lona circense sempre fora parte do mercado, e em parte por luta política, uma vez que é (ou deveria ser) responsabilidade permanente do Estado garantir o fomento, formação e difusão de todas os meios diversos de produção da linguagem. Seja por um, seja por outro, o circo e seus coletivos permanecem no tempo por resistência. Pois é exatamente aí que se situa o Grupo de Circo Teatro Palombar. O motivo de identificá-los no tempo antes de introduzir o assunto real deste texto é para que se entenda que determinado processo de produção estética da linguagem não está isolado, em parte ou no todo, de seu contexto ético. Há uma problemática por trás da obra que é de ordem histórica, há uma identidade e, mais, a historicidade na formação dos artistas que a propõe. Considere que o grupo carrega no nome as palavras “grupo”, “circo-teatro” e “Palombar”.

A primeira remete à defesa da posição política da coletividade como identidade artística, a segunda carrega a força histórica de um dos períodos de maior experimentação do circo brasileiro e a terceira palavra é o resgate de um termo reconhecível somente aos circenses de família tradicional, ou aos pesquisadores mais atentos. Este é um grupo formado em sua maioria por jovens, cuja trajetória se constitui a margem do eixo de produção da linguagem em São Paulo e que mantém continuamente pesquisa e circulação de espetáculo para além do seu território de origem. Estão à frente da Cooperativa de Artistas, formada por coletivos da Cidade Tiradentes, e circulam pelas reuniões e encontros para o debate público em torno da linguagem. Há, portanto, uma outra ideia de “geração” ao olhar estes jovens circenses, que não se fixa no sentido estrito familiar, mas sim na resultante histórica que compõe estes indivíduos artistas e está coletividade.

Em outras palavras, o Grupo de Circo Teatro Palombar é tudo isso que carrega em seu nome e também é isso tudo o circo hoje. O espetáculo A Fabulosa Charanga dos Excêntricos é o terceiro espetáculo do grupo e também a síntese de tudo que foi dito até agora. O trabalho ousa em trazer para o corpo jovem a linguagem do palhaço excêntrico musical, normalmente papel para aquele artista mais experiente do circo da família tradicional, muitas vezes identificado como “mestre” ou “maestro”. Mas está na experimentação do aprendiz o principal interesse do grupo em desafiar-se a aprender a tocar instrumentos e remontar números clássicos ao mesmo tempo em que atualiza esquetes para o diálogo com a atualidade.

Uma trupe formada só por palhaços é também um mergulho de cada artista em si, um mergulho pessoal e ao mesmo tempo coletivo, de construção da própria identidade e um novo olhar para a identidade do grupo. Nada melhor do que a linguagem do palhaço para promover descobertas, evidenciar os erros e apropriar-se do que dá certo na relação com o público. O espetáculo tem um estado de processo permanente, no bom sentido de não existir obra pronta, que se refaz no encontro, efêmera, porém sem se deixar descaracterizar, sendo a forte unidade de grupo, o apuro e primor pela execução técnica dos números musicais os pilares de sustentação do trabalho. Há um trabalho de amadurecimento pela frente. O grupo deu um passo importante neste sentido. Há um repertório, traçado a cada auto desafio, que precisa ser apurado. A própria linguagem do palhaço só amadurece no fazer e refazer com o público.
Só se dará no tempo. Mas o destaque é que para além do grupo, da linguagem e do espetáculo, há uma marca histórica que poderíamos chamar de nova geração, talvez não no sentido passivo da palavra como quem “foi gerado”, mas ativo, de geração, de quem “está gerando”. O Palombar representa uma geração que tem o poder de trazer à síntese uma trajetória por tantas vezes conflituosa na afirmação da arte circense. Que isso não soe com peso de responsabilidade, mas sim como identificação de uma vocação. Por mais desgastada que possa estar essa palavra, existe de fato um processo de empoderamento destes jovens geradores de transformações em si e seus meios, e como é importante acompanhá-los e estimulá-los para que continuem mesmo em tempos onde as paredes cinzas, a falta de perspectiva e a falta de sorriso nos rostos não combinam nada, nada, nada com o circo.

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