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Crítica – Nos trilhos circenses da alegria e da emoção: 5 anos de risco e palhaçada da trupe Palombar – Alexandre Falcão

 

Alexandre Falcão

 

Assistir novamente “Uma arriscada trama de picadeiro e asfalto”, da Palombar Circo e Teatro, cinco anos após ter assistido o espetáculo em sua temporada de estreia, foi uma grata surpresa. Ver materializado um caminho de pesquisa, formação, criação e desenvolvimento conjuntos, enche de alegria os olhos sensíveis de quem se dedica à arte e à educação.

É notável o crescimento das meninas e meninos que integram a trupe, tanto em altura (pois conheci muitos quando ainda eram crianças e adolescentes, participantes de projetos de circo social, do grupo Pombas Urbanas), quanto em desenvoltura na cena. O procedimento de revezamento dos artistas entre os diversos papéis e funções, destacado pelo diretor Adriano Mauriz em conversa antes da apresentação, reforça o aspecto pedagógico (e eminentemente épico) do processo de trabalho do grupo.
Com todos os desafios de uma reestreia e apesar das mudanças no elenco e de certo nervosismo, o grupo soube divertir e encantar o bom público presente no Tendal da Lapa, no sábado, dia 03 de fevereiro. Desde o início do trabalho, com o cortejo de metais e percussão, seguido depois pelo pipoqueiro e mestre de cerimônias Dymbo (interpretado pelo ator Paulo Wesley), o grupo interage com o público, brinca, provoca, envolve.

O teatralismo e a triangulação que são “marcas registradas” do circo estão presentes em toda a encenação, às vezes com mais precisão, outras vezes de forma um pouco insegura. Mas, como bons circenses na corda-bamba, o grupo equilibra bem a dosagem entre a comicidade e os números de habilidade, inclusive porque a inabilidade também gera muitas risadas. Em diversos números, a destreza dos artistas impressiona: luta com espadas, malabares com facas, trapézio: o risco é real, prende a atenção e envolve o público. Mas, rapidamente o risco se converte em palhaçada, como na sequência de números com a participação de espectadores, entre eles o clássico número do “atirador de facas”.

Apesar da formação crítica que é transversal aos processos do grupo, em uma cena eles deixam escapar uma visão estereotipada e superficial em torno de um tema importante: a questão indígena. Apesar de citarem os hotxuás, uma espécie de palhaços sagrados do povo Kraô, na sequência o grupo representa uma cena farsesca de faroeste norte americano, sem contextualizar as distâncias temporais e geográficas entre ambos os grupos indígenas e períodos representados. Conforme debatemos na “Clownversa” sobre Artes cênicas de rua, realizada, no dia 05 de fevereiro, no centro de memória do circo, este é um tema sobre o qual os palombares precisarão se debruçar, se não quiserem contribuir na reprodução dos preconceitos contra os povos originários da América.

Mas, como conjunto da obra, o grupo surpreende, diverte e gera beleza, regada por muita boa música, executada ao vivo pela excelente banda Palombar, que, aliás, é uma notável conquista na trajetória de crescimento artístico da trupe. O trabalho deixa um gostinho de quero mais, nos dá vontade de assistir às outras peças do grupo e ir atrás do circo em caravana, de carona com o trem que constantemente passa atrás do Tendal da Lapa. Que estes cinco anos sejam apenas os primeiros de muitos: longa vida à Trupe Palombar e que muitos e belos trilhos guiem seu caminho!

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